sábado, 8 de novembro de 2008

O gato à solta








Nesta tarde um sabiazinho recém saído do ninho apareceu no nosso quintal. A gata Neguinha veio vindo de mansinho, avançando sorrateiramente, como é próprio dos gatunos. Minha mãe, com a bacia de roupa lavada nas mãos, começou a gritar, tentando dissudir a gata de que ali não estava seu jantar. Gritou, gritou, gritou - abrindo os braços e fazendo movimentos horizontais frenéticos - como se fosse a própria Sabiá-Mãe batendo suas asas. Depois segurou o gato e o trancou no quartinho dos fundos. Coitada da gata, ficar presa o dia todo, também não pode, disse minha mãe. Interessante é que a gata mata os passarinhos, mas não come. Será que perdeu o paladar para carne crua e sangue, depois de tanta ração de supermercado? O fato é que ainda é caçadora e corre atrás dos passarinhos inaptos para o vôo.



Mas não era disso que eu queria falar. Queria era te contar do casal de sabiás, muito altivos e prontos para a briga, que acompanhou todo o episódio. Quando a gata vinha vindo, os Sabiás-Pais começaram um algazarra, que atraíu toda sorte de passarinho: pardal, tico-tico, andorinha... e a sinfonia foi alta e desesperada, pi pi pi, fi fi fi, uuuu! Os Sabiás adultos batiam suas asas, sobe desce sobe desce sobe desce! Voavam baixo, fazendo acrobacias, perto do filhotinho. Protegiam o filhote da gata e da minha mãe - prontos que estavam para dar umas boas bicadas aproveitando um dos seus razantes. Os outros pássaros, acompanhavam o desfecho sem se aproximarem muito, pousados no varal de roupas, no telhado, no portal.



Se você quer saber se o passarinho sobreviveu, sabia que eu também quero. Mas eu não sei. A noite é escura, o quintal dá medo e o gato está à solta.





Para ouvir o canto do sabiá enquanto o gato não vem: http://www.picarelli.com.br/clipping/clip25092003b.htm

5 comentários:

Alexandre disse...

Eu adoro ton histoire, Alex

Anônimo disse...

Eu presenciei este acontecimento. Nunca tive a aportunidade de ver a mãe e o pai da sabiazinha defedendo a cria da boca da gata. Cena de emocionar.
Essas Meninas Gerais gostam de mexer com o nosso sentimento.
Continuem escrevendo estas
histórias, pois acrescentam sentimentos bons ao nosso coração.

João disse...

A historia é interessante. é competição pela sobrevivência ou pelo estinto.
Estava torcendo pela gata...

Menina MA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Menina MA disse...

Linda, linda a narrativa!
Sabe de que lembrei... de uma música da infância que cantei, quando estava em São Pedro da Serra, observando uns sabiás vindo comer frutas, enquanto eu tomava café. (Aliás, tiramos fotos lindas)
"Sabiá lá na gaiola,
fez um buraquinho
voou, voou, voou
E a menina que gostava
tanto do bichinho
chorou, chorou, chorou..."

Ai que saudades da infância!