quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Seu Zé ganhou na loteria


Seu Zé, que vendia picolé, nascido na fazenda onde seus pais, negros escravos, trabalhavam, acaba de ganhar na loteria. Ganhou, mas não vai levar. Seu Zé é um zé ninguém. Mora no asilo. Seus familiares assinaram um termo de concessão de tutela para a instituição que vem cuidado do idoso há 5 anos. Seu Zé tem mais de 90 anos, mas anda, gosta de jogar dominó e da canja de galinha que nas terças-feiras é servida no asilo. Tem 5 filhos e 12 netos. Não cabia na casa de ninguém. Uma nora não gosta dele. Um genro está desempregado. Três crianças pequenas é trabalho demais para uma filha. Filho homem não cuida de pai idoso e assim por diante. Hoje, neste país, todo idoso pobre tem direito a uma aposentadoria, seja como trabalhador, rural ou não, seja através do repasse do Benefício de Prestação Continuada. O asilo onde Seu Zé mora fica com 70% do seu benefício, com os quais compra remédios, paga os funcionários, a luz, água, comida e até umas festinhas de vez em quando. Os 30% restantes, Seu Zé emprega neste pequeno luxo da vida: a jogatina. Aposta em tudo: bicho, loteria, mega-sena, até rifa e bolão. Ele está em todas. E agora ganhou. Sim, ganhou. Com isso, a vida poderia dar uma guinada. Seu Zé poderia sair do asilo, comprar uma casinha, pagar uma pessoa para lhe fazer a comida, arrumar a casa e até lhe fazer companhia. Quem sabe, não arranja uma esposa? Quem sabe a dona patroa não quer voltar para ele? Quem sabe um dos filhos não lhe aceita, ele pode pagar a reforma da casa da mais nova, comprar o terreno do mais velho. Não sabemos o que vai acontecer. O asilo já está contactando o advogado, o dinheiro é nosso. A família, do outro lado, não tem dúvidas de que aquele dinheiro pertence ao pai e só ao pai. E claro que um pai não deixa os seus filhos na mão. Pai é pai (parente do mãe é mãe). Mas para Seu Zé, nada mais importa, ele não quer saber, mostrou-me o bilhete premiado e me disse: eu ganhei na loteria, taqui o bilhete premiado! E acrescentou, num suspiro aliviado: agora posso até morrer sossegado...
Qualquer semelhança com realidades vividas é a mais pura coincidência...

2 comentários:

Gabriela Ferreira disse...

Agora que estou fazendo um trabalho voluntário no asilo vejo o quanto os idosos foram abandonados pelos seus parentes. Nunca tem tempo ou condições para cuidar da pessoa que deu-lhes a vida, educação, alimento. Tudo o que uma pessoa precisa para crescer e se transformar em alguém. Mas o tempo e as condições infelizmente aparecem quando o idoso vem acompanhado com uma bolada de dinheira. Ai a família briga pra ver com quem vai ficar o vovô só para se apossarem do dinheiro. uma triste realidade que é muito difícil da acontecer, não porque as pessoas são muito humanas, mas porque não é sempre que alguém ganha na loteria.

Nanda Fala... disse...

O seu Zé tem muito em comum com meu avozinho... trabalhou sempre, criou os filhos e adora uma apostazinha...
A sorte do meu avo é que ele gosta de ser sozinho, lá na casinha dele... Já tentamos trazer ele pra casa, mas nada...

A velhice na nossa cultura é estorvo. Uma pena mesmo...