sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Viviane Mosé

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)


acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

do livro Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso, em homenagem à Maria Ana, que também fez as pazes com o tempo

2 comentários:

Bruno disse...

Muito bom, muito bom mesmo.
O tempo é a maior angústia de todas.
Conseguir isto que a poesia sugere, é uma proeza e tanto.

Maria disse...

Obrigada pela homenagem!
Como te contei, esta poesia (que me foi apresentada pela Eduarda) veio à minha mente ao acordar, uns dias antes de completar mais um ano de vida.
Enfim, "acho que há vida em mim".
(Não tem muito o que comentar)
É delicioso ouvir/ler isto.
Beijos